É a Idade…

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Vim pra reclamar…

Às vezes a gente percebe que está ficando velho de mais pra tudo, a paciência começa a ficar curta e você se dá conta de que está realmente ficando velho… ou o mundo está ficando louco.

Parei de ler a maioria dos quadrinhos periódicos já nos anos 90, comecei a filtrar muito o que lia, às vezes por não concordar com os rumos que certos arcos estavam tomando, às vezes por não concordar com as políticas de preços adotadas pelas editoras aqui no Brasil. O dois motivos foram impulsionados pelos mesmos fatores, à meu ver.

Desde que Geroge Perez e Marv Wolfman explodiram nossas cabeças com Crise nas Infinitas Terras, logo depois do sucesso de Titans, todo mundo achou que pra fazer sucesso ou vender mais alguma grande “M” tinha que acontecer no mundo dos quadrinhos.

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Mataram o Superman, mataram o Robin, deixaram o Batman aleijado, casaram o Homem Aranha, tudo bem que isso não chega a ser uma “M” dependendo do ponto de vista. Mas essas mudanças cruciais nos arcos, não afetavam apenas uma estória, mas todo o canon do personagem e de todos que margeavam suas revistas.

Essas decisões foram pura estratégia de marketing visando mais vendas no competitivo mercado dos quadrinhos. Mercado esse que sofria e exigia mudanças a medida que o próprio mundo a sua volta mudava. Saíamos do terror iminente gerado pelas ameaças da guerra fria, muros que dividiam nações eram derrubados, eram mudanças pesadas que viriam a marcar a história da humanidade.

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Mas da mesma maneira que essas decisões foram tomadas e venderam muito, mais pela curiosidade do leitor do que pelo sucesso da revista, ela se tornou um problema e toda a indústria teve que se reunir para corrigir as “mudanças’ feitas no plantel das editoras. Fomos à muitos funerais de heróis, vimos muitos se casando e constituindo família, outros tantos mudando de personalidade como se fosse um outro personagem e até desaparecimentos inexplicados. E isso ocorreu como uma epidemia em todas as editoras da época.

Alguns trabalhadores da indústria viram essas mudanças de outra forma e enquanto eram exigidos a trabalhar nessas “mudanças”, criaram suas próprias editoras para trazer personagens com essa nova cara que o mercado pedia, mesmo sabendo que não poderiam competir com 40 ou 50 anos de estória e histórias.

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Os anos foram passando e os mesmo problemas ainda acontecem nas antigas editoras. Enquanto as novas galgavam espaço no mercado e começavam a se tornar uma ameaça, elas teimavam em testar mudanças nos personagens já consolidados e que não precisavam ser mudados.

O cinema chegou no meio dessa primeira mudança e com diretores que diziam que de cinema eram eles quem sabiam das coisas, e a ideia da versão do herói do diretor se consolidou. Muitos diretores, atores, produtores e sabe-se mais lá o que, nem se davam o trabalho de ler ou pesquisar sobre os personagens e saíam fazendo loucuras nos roteiros, a premissa básica da pesquisa foi esquecida e paralelamente aqueles que se manifestavam publicamente como fãs eram excluídos exatamente por este motivo, o que poderia comprometer a “liberdade” criativa da equipe.

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Esse problema vem se repetindo até hoje quando vemos atores dizendo que não precisavam pesquisar para o papel, pois dispunham de uma equipe de nerds contratada para eventuais dúvidas. Quando vemos um ator/diretor/roteirista/fã de peso convencer a indústria a investir novamente num personagem onde haviam errado dezenas de vezes e assumindo todas essas funções para viabilizar o projeto, é excluído por estratagemas depois que desatolaram o caminhão e agora todo mundo quer sentar na janela.

Infelizmente a nossa diversão, aquela alimentada por várias décadas guardando o dinheiro da merenda na escola, do cinema com a gatinha, da partida de futebol do seu time. A indústria pouco se importa com as suas privações pessoais que ajudaram a mantê-la no topo, que ajudaram a fazer do seu herói um recorde de existência e vendas lucrativas. Somos todos derrotados pelos novos personagens humanos que entram pra essa indústria e vêem todas as histórias de sucesso com roteiros e traços mirabolantes passam a achar que chocar é o que importa.

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Chocando conquistam views, essa é a premissa dessa geração. Até entendo, mas houve uma época que se chocava de maneiras diferentes e por motivos muito maiores, nada de premissas pessoais, lutas eram contra guerras, ameaças globais, eram guerras contra as quais todo herói queria lutar. Não se tratava de brigas de vizinhos por um cortador de grama ou porque a árvore dele esta deixando cair folhas no meu quintal. O maior exemplo disso era que durante muito tempo a sede da Liga da Justiça se confundia com a da própria ONU.

Não se pode mudar uma característica de um personagem se o mesmo foi baseado em algo maior que ele  mesmo. Se ele é inspirado em uma mitologia, a mudança afetaria essa mitologia. As características físicas e psicológicas, tanto quanto o seu caráter é constituído por exemplos usados na construção da sua história e se mudarmos esses conceitos mudamos também todo o universo usado pra sua criação, o que nos daria um novo personagem que simplesmente usa aquela roupa transada que alguém em algum momento criou. Me faz parecer que simplesmente o símbolo é que importa e sobre o que ou como vou usá-lo.

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Os heróis não tinham pátria, partido ou gênero, esses conceitos não os trouxeram mais perto da humanidade, não os tornaram mais parecidos com nós e nem mesmo perguntamos à eles se isso poderia ser feito. É difícil de ver um personagem com 70 anos de história e você não conseguir reconhecer, é difícil de ouvir que agora ele não é mais do jeito que você conheceu na sua infância e que na realidade aquele personagem nunca existiu pois algum “profissional” chegou e mudou não toda a trajetória do personagem, mas toda a sua história pessoal, as suas privações do lanche, do cinema, do futebol nunca existiram. É como se com a mudança da história cronológica do personagem que deixou de existir desde os 30 ou 40, a sua também tivesse deixado de existir.

Poderíamos filosofar sobre isso por vários dias, dizer que se não existiu onde foi para o lanche que não comi? Mas a verdade é que a indústria está sempre à mercê dos lucros e das ideias mirabolantes de quem quer entrar na história por ter feito isso ou aquilo com o personagem queridinho do público. Anda tenho esperanças de que o tempo do respeito ao público, aos profissionais que antecederam ou aos que ainda estão na indústria ou à própria história do personagem seja respeitado. De que o termo: “Não é esse o personagem que estou criando!” não seja mais usado…

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Gostaria sinceramente que esse personagens pudessem envelhecer como eu, que os seus mantos fossem passados adiante para novos personagens com suas características próprias e visões diferentes do mundo. Isso sim os tornaria como nós ou mais parecidos com as pessoas normais. Não é só o corpo que envelhece e se cansa com o passar dos anos, e essa falta de flexibilidade que o tempo nos traz, poderia também externar mudanças que forçariam uma evolução, involução ou até mesmo a aposentadoria do personagem ou seu alter-ego.

Como disse, estou ficando velho… deve ser a idade!

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