O problema do cachimbo!

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Desenho animado é coisa séria. Se você quer entender a quantas anda o nível de caretice ou loucura da sociedade, basta dar uma olhada no que as crianças estão consumindo.

Não é de hoje que grandes empresas, das mais diversas áreas, sacaram que a molecada é um nicho extremamente lucrativo, e que os desenhos e personagens possuem um poder de venda absurdo. Um clássico exemplo disso: Popeye.

Reza a lenda que o personagem, criado na década de trinta pelo cartunista Elzie Crisler Segar, alavancou em 33% a venda de espinafre nos EUA! Dizem as más línguas, inclusive, que rolou uma encomenda aí. Se houve ou não, vou te contar, a propaganda deu certo. Sou hoje um apaixonado por essa verdura graças ao marinheiro e a minha mãe, que me fuzilava com a poderosa frase “não quer ser forte que nem o Popeye?”
Soa cafajeste, né? E é. Mas foi por uma boa causa. O problema é que, numa mesma figura, você tinha o herói fortão com uma dieta saudável, e o cara que curtia dar pitadas no seu cachimbinho cancerígeno.

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Durante muito tempo isso não foi uma ameaça, mas algo aconteceu aos pouquinhos ao redor, e hoje, amigo, o alerta está tocando!

De repente os desenhos passaram a ser socialmente relevantes. Alguém cheio de nóias chegou a conclusão de que, através deles, estava sendo propagada, também, a cultura do mais selvagem consumismo, além de ideias incompatíveis com a inocência infantil, como insinuações sexuais, satânicas e etc…

Eu disse “de repente”? Na verdade não. Talvez o grande marco inicial dessa caça às bruxas tenha sido o ataque do psiquiatra Frederic Wertham ao heróis dos quadrinhos e, consequentemente, aos seus derivados. Ele fez tanto barulho que, durante muito tempo, muita gente apostava num rolo entre Batman e Robin além do combate ao crime.

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Bem…se doutrina para o “torto” por que não para o “certo”? Pronto. O politicamente correto entrou de voadora na história, e, logo, os heróis mais fortes do universo, e suas respectivas contrapartes femininas, não acertavam mais nenhum soco no inimigo, e ainda terminavam suas aventuras com uma linda lição de moral. Ou então ele simplesmente surgia, pela união dos seus poderes, para combater maléficos poluidores. Até o mais rebelde dos guris tinha que ter muito bem estampado na sua latinha de spray “no CFC”.

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Então desembarcamos no presente, e a coisa e evoluiu para uma confusão de bandeiras e ideologias que nos faz coçar a cabeça. Será que o certo é errado porque quer parecer certo enquanto esconde fins errados? Ou o errado é certo por não estar se vendendo?

Há poucas semanas o YouTube liberou a imagem da nova versão do Popeye, e de cara o choque! Cadê o cachimbo?? No lugar está lá um apitinho sem vergonha que, para muitos, é uma heresia do tamanho de um bonde. Ficou evidente a preocupação com a nova geração, separando a imagem do herói a do tabagismo (ou seja lá que erva role naquele cachimbo).
Essa galera injuriada aponta o tal politicamente correto como vilão, mais uma vez editando e distorcendo personagens icônicos para serem aceitos no novo padrãozinho “papais Nutella”, que acreditam que tudo influencia na educação e comportamento de seus bebês.

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Apesar de reconhecer uma certa chatice sem fundamento no ar (eu amava Popeye e nunca fumei), não vi nada de tão grave nessa adaptação. Aliás, acho realmente conveniente. O cachimbo era um recurso gráfico pra enfatizar o quanto o marujo era macho e durão, assim como a cueca por cima da calça reforçava a ideia de força do Superman, por lembrar os antigos halterofilistas. Mas esses conceitos visuais passaram, e retirá-los não mexe em nada na essência do personagem.

Esse preciosismo dos coroas só serve mesmo pra nos levar a pensar se, de fato, os chatos não somos nós por não conseguirmos aceitar que o que era nosso passou adiante, e que muita coisa desse novo mundo não é mimimi…é sim melhor do que era, como, por exemplo, o combate aos vícios.

Enfim, a discussão estava esfriando quando, do nada, a Netflix vem e taca gasolina na fogueira, lançando um trailer curtinho mas hiper polêmico sobre a nova versão de Cavaleiros do Zodíaco. Tudo porque, mais uma vez, um cachimbo sumiu….desculpe, não pude evitar a piadinha.

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Shun de Andromeda será Shaun, uma garota! A mudança já seria mais do que suficiente para um respeitável estardalhaço, mas, pra piorar, o responsável pela bagaça veio a público declarar suas razões de uma maneira bastante sincera (de tão sincera, alias, o fez apagar sua conta no Twitter).
-É porque estava faltando uma menina na turma pra atender a cota.

Essa declaração é assustadora, e muito desanimadora para os fãs da série. Primeiro por mostrar que o rapaz não conhece muito da mitologia dos cavaleiros, e não dá o devido crédito a força e importância das personagens femininas que já existem, embora as tenha citado. Ok, elas não estão lá no grupo principal, contudo, na comparação com os cavaleiros de bronze, as meninas são muito superiores! São as mestras! Aliás, é a deusa! Mudar pra atender uma demanda, ignorando o peso dessas personagens é uma ofensa pra todo lado.

Mas o pior vem com o fato da escolha do cavaleiro operado ser absurdamente óbvia. Shun, o andrógino, com sua armadura rosa e sensibilidade, seria a opção mais fácil, além de derrubar uma outra polêmica na mesma tacada. “Seria prudente manter um cavaleiro tão efeminado no grupo?”

Estabelece-se assim um duelo de bandeiras. A mulher tem que estar lá…mas tem que tirar o gay? De que lado está o politicamente correto nisso aí?

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Claro, temos que esperar a estreia pra conferir o estrago, mas, observando o que a Netflix tem trazido, podemos ver uma preferência por personagens femininas fortes, decididas….empoderadas! Mas Shun não era isso. E se Shaun for? Se ela mantiver a personalidade de Andromeda será um retrocesso, e se virar She-ra será um assassinato.
Sinuca de bico que deixa duas grandes perguntas sem resposta: por que não criar algo novo de qualidade? E por que não deixar que os pais assumam a responsabilidade de educar e filtrar aquilo que os seus filhos vêem controlando o controle remoto como adultinhos que são? Ai ai…
E você reclamando do cachimbo do Popeye, hein?

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