El Eternauta

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Você se imagina sentado na sua casa com amigos pronto para uma partida de truco semanal quando ouvem pelo rádio o relato de uma explosão no pacífico e presenciam uma invasão alienígena e a cidade toda tomada por neve? Parecendo uma releitura de Guerra dos Mundos de Orson Welles.

Criada pelo roteirista Héctor Germán Oesterheld e pelo cartunista Francisco Solano López e publicada na revista Hour Zero Weekly entre 1957 e 1959, El Eternauta (1957), ou O Eternauta aqui no Brasil, é uma dessas aventuras que surgiram nesses por consequência da grande explosão de aventuras de ficção científica dos anos 50. As estórias são introspectivas, auto analíticas e questionadoras.

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Tenho uma profunda decepção pessoal por só ter conhecido suas aventuras já na minha fase adulta e ao mesmo tempo em que sinto um certo alívio tamanho o peso de suas narrativas que trás para quem lê uma reflexão pessoal intensa. Algo semelhante acorreu com Conan, O Bárbaro (1932) que também na sua síntese original era um personagem que explorava em suas aventuras o preceitos e questionamentos morais da sociedade  adaptadas para aventuras de ficção ou fantasia, totalmente diferente do personagem retratado nas páginas dos quadrinhos.

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As estória se passa em uma Buenos Aires invadida por alienígenas e tomada por uma densa camada de neve tóxica que acaba com boa parte da população e a resistência dos que sobrevivem. Oesterheld se coloca como espectador e ouvinte das estórias narradas por Juan Salvo, O Eternauta. Como pano de fundo temos a referência do rádio usado por Wellles, os personagens vão descobrindo meios para sobreviver, a necessidade de busca por alimentos, de união. Aqueles que conseguiram sobreviver ao incidente passam a agir de forma anárquica com o instinto de sobrevivência e auto preservação aflorando levando o homem à atitudes pouco civilizadas.

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A roupa de mergulhador, que não é um simples traje, se justifica como peça principal de proteção contra a neve tóxica e que dá um ar diferente ao personagem e ao mesmo tempo tão próximo à gente. Quando criança sempre imaginava que os mergulhadores pareciam astronautas ou viajantes espaciais, isso de certa forma faz com que o personagem mecha comigo e me leve de volta àquele período da infância tão gostoso e repleto de imaginação, de quando uma simples caixa de papelão virava uma nave espacial ou m cabo de vassoura se tornava um alazão, mesmo que naquela época não entendia o que significava isso.

Essa proximidade visual e construtiva do personagem nos leva à uma reflexão tão atualizada que levou a sua reedição em 2015 e concedeu-lhe três indicações para Prêmios Eisner e é considerado um dos trabalhos mais importantes da Argentina e da América Latina.

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O ponto mais destacado da obra por especialistas e profissionais da área é a amplitude de informações sutis, as referências veladas e outras interpretações que poderiam ser feitas dela. O próprio Oesterheld, por exemplo, indica que em O Eternauta o protagonismo é sempre de um grupo de pessoas, às vezes menor, às vezes maior, formando assim um “herói coletivo” ou “herói em grupo”, o qual valorizava mais que um herói individual. Os invasores são comumente vistos como uma referência aos golpes de estados vividos pelo país do autor.

Nota-se também que, com exceção de “los Ellos”, que são mencionados mas não aparecem em nenhum momento, nenhum dos invasores é realmente mau, são seres forçados a cumprirem ordens de outros. Críticos veem nisso um ataque de Oesterheld à guerra, ou uma referência à luta de classes. Não bastasse o clima de medo, o “personagem” tinha que manter a humanidade e ao mesmo tempo a sanidade em um mundo desolado e cruel, onde a lei do mais forte se faz presente e a busca pela sobrevivência moral parece uma impossibilidade quando quem devia proteger passa à caçar. É uma viagem solitária que faz com que O Eternauta seja uma leitura obrigatória, dessas que a gente tem que absorver e remoer internamente. Com seus cenários desolados e ao mesmo tempo intactos nos fazem pensar na desolação individual que nos propomos pelo mundo construído a nossa volta.

Walber Pena

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