Você Tem Tempo Pra Um Café?

Posso dizer que sou um privilegiado por ter vivido em meio a dois mundos ou, mais propriamente falando, na transição de dois mundos. Sou um desses caras dos tempos das cartas, cartões postais, fotos polaroides, disco de vinil e fitas cassetes. Tudo isso pra muita gente faz parte de um passado inimaginável, apesar de tão recente.

O fato de ter visto e vivido o advento dos computadores populares e da internet comercial me deu uma visão bem diferente de uma boa parte dos amigos que cultivei na vida, se é que estes consideram isto uma amizade como o tipo que amizades que conheci.

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Nesses tempos, a pausa para um cafezinho era algo que ocupava o topo da listas das coisas mais importantes a se fazer no dia, de uma importância imensurável, era a hora da celebração da amizade.

Sob o pretexto de se ler o jornal disponibilizado no balcão, trocar informações e opiniões sobre os últimos acontecimentos na economia, política e livros, muitas amizades se construíram e se fortaleceram nessa rotina diária de se ir à um café, numa pausa do expediente ou mesmo antes dele ou na hora do almoço.

Vi esta cultura se perder da mesma maneira que vi um dos últimos cafés com essa característica fechar, e da mesma maneira em que observei o último dia desse café: desde a sua abertura até o momento em que as portas foram fechadas pela última vez, enquanto seus clientes mais assíduos partiam sem rumo, desolados e cabisbaixos pelo beco escuro.

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Tudo bem que você vai dizer que hoje ainda existem cafés, em mais quantidade, modernos, com redes wifi. Mas é isso mesmo que você procura? Você hoje vai a uma cafeteria badalada, pega o seu celular, acessa a rede e começa a bater papo com seus amigos via aplicativo, então eu te pergunto: “Onde está o calor humano? O olho no olho? O sorriso sincero?

Os segredos e confissões se perderam, a confiança pessoal foi substituída pela criptografagem, os deslizes pelos hackeamentos. Onde estão os seus amigos?

Notícias de perdas daqueles amigos antigos são difundidas com pesares, tristeza, e muitas lembranças de momentos bons trocados olho no olho em meio a lágrimas enquanto num grupo de “amigos” a perda de outro é feita em meio à piadas, sacanagem e memes sacaneando quem não está mais aqui pra se defender.

Não sei se essa mudança se dá ao comportamento pessoal, criação ou falta dela, ou mesmo a falta do café, onde a conversa era pessoal e as novidades eram dadas pessoalmente por quem as trazia e não através da viralização de um ou outro fato.

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Até que tentei introduzir esses conceitos para esse grupo “novo” de amigos, mas eles não entenderam, aprenderam a gostar de café, porém não absorveram a máxima de um apreciador de café: “Beber café e fazer sexo são duas coisas que se faz sozinho, mas não tem graça nenhuma!

Por mais de uma vez eu disse: “Você não entendeu nada! Não adianta comprar uma máquina de café e colocar em casa se você não vai ter amigos em volta da mesa!

Talvez eu tenha me perdido em algum lugar, talvez o próprio conceito de amizade tenha se perdido em algum lugar. Mas pra mim amizade ainda tem o cheiro do café moído, o som dele sendo espremido e o calor dele sendo bebido, tem o tempo da pausa, da parada no tempo, da memória abraçada à lembrança.

 

 

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