3% : O futuro distópico tupiniquim

3porcento

Bem vindos guerreiros ao futuro, mas não podemos dizer o quanto no futuro. Esse futuro não é belo e brilhante como te prometeram, mas ao invés, é trágico e degradante. Nesse futuro você não tem nada, não tem água, a comida é escassa, a dignidade é um luxo ao qual você não pode se dar e a esperança não existe…. ao menos se você tem mais de 20 anos.

Essa é uma pequena e muita resumida premissa da nova serie Netflix, totalmente produzida no Brasil, com criação, direção e atuação inteiramente tupiniquim: 3%. A historia desse projeto remete ao ano de 2011, quando 3 episódios piloto foram lançados como web episode no Youtube. A serie caiu nas graças da Netflix apos um sucesso avassalador no Youtube e foi lançada na plataforma de streaming no ultimo dia 25 de novembro.

A serie se passa em um futuro distópico ambientada no Brasil, mas exatamente em que parte do pais não é claro, e não que isso importe muito. Nesse futuro o mundo foi devastado por alguma tipo de catástrofe, e eu chuto muito que seja uma catástrofe social, que dividiu a humanidade em dois grupos; os que ainda vivem nas enormes favelas do continente, sem água, sem comida, sem recursos e quase sem esperança; e os que vivem em Maralto, uma colonia em mar aberto, uma sociedade avançada, perfeita, onde não existem injustiças e não falta nada nunca.

Ao completarem 20 anos de idade, todos os habitantes do continente, ou “o lado de cá” como eles mesmo chamam, tem a oportunidade de passar por um processo de seleção, ou simplesmente O Processo, e se se demonstrarem aptos e merecedores, farão parte dos 3% de candidatos aprovados e permitidos a abandonar tudo para trás e irem viver em Maralto, ou o “lado de lá”.

Merecedores é a palavra chave aqui. A critica a meritocracia é pesada em 3%, onde temos todo o tipo de pessoa com todo o tipo de background possível e imaginável sendo sotopostas a duras provas de aptidão mental, logica e principalmente ética e moral para se demostrar merecedor de uma vida melhor.

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O problema porém é justamente esse, alias um dos problemas. O conceito de futuro com sociedades distópicas e graves problemas sociais já vem sendo debatido ao longo dos últimos anos no cinema de forma ate exaustiva eu diria. A essa altura do campeonato, 3% deveria ter um algo mais pra se destacar alem da ótima ideia e infelizmente não teve.

Mas não é só do mesmice que sofre 3%, alias eu acho que esse foi um dos menores problemas da serie. A ideia de questionar pesantemente a meritocracia, tao em voga esses dias, e tratar de outros problemas polêmicos pouco abordados em filmes como Hunger Games e Maze Runner, é excelente, o problema é como isso foi abordado.

A serie sofre muito mais de falta de roteiro, diálogos e um aprofundamento de ambiente e personagens do que com o tema batido. Os diálogos em geral são vazios, rasos e algumas vezes não fazem sentido nenhum, falta uma ambientação muito mais crível e que propicie uma imersão mais profunda nesse mundo catastrófico do Brasil do futuro ao ponto de te fazer realmente sentir o peso que o Processo tem na vida dos personagens. Mais parece as vezes um Enem meio distorcido onde tanto faz como tanto fez ser aprovado ou não, ate mesmo as reações daqueles reprovados em alguma prova não tem nenhuma carga dramática pra serie.

As interpretações também não ajudam muito a dar profundidade aos personagens. Não da pra saber com exatidão se o problema foram os atores ou se teve dedo da direção na maneira como as atuações foram conduzidas, mas esta claro que não ficou legal. Alguns personagens ficaram caricatos demais, como é o caso de Ezequiel (João Miguel), o chefe do processo, que tentou ser um tipo de vilão frio e distante e toda a patota dos recrutadores que sofrem de uma superficialidade cronica.

Os candidatos sofrem de um outro problema. Apesar de algumas boas atuações como a de Vaneza Oliveira (Joana), Rafael Lozano (Marco; o personagem com melhor arco evolutivo da serie e um trabalho ótimo do ator) e Rodolfo Valente (Rafael; clássico vilãozinho mas o ator encarnou tao bem o espirito do playboyzinho marrento que não tem como não aplaudir), no geral os personagens são muito pouco desenvolvidos pela trama que enquanto escrevo esse texto estou fazendo um esforço mental pra lembrar o nome de alguns deles. Os protagonistas Bianca Comparato (Michele) e Michel Gomes (Fernando) são as maiores decepções, apesar da atuação OK, os dois personagens eram os que tinham os arcos mais proeminentes e inexplicavelmente foram os com pior arco evolutivo de personagem.

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Fora isso, a serie sofre do clássico brasileirismo fora de novela. Muitos palavrões gratuitos, muitas gírias mal colocadas e um linguajar que poderia ser aproveitado pra dar mais profundidade ao cenário, mas usado de qualquer maneira. Não que eu seja pelo politicamente correto, mas é uma outra boa maneira de se ambientar um telespectador desperdiçada.

A trilha sonora também não colabora, sendo que o tema de abertura parece fazer mais referencia as nossa cultura brasileira atual do que a do futuro distópico que se quer apresentar.

A Netflix liberou a primeira temporada de 3% no seu formato curtinho muito palatável pra maratonar, de 8 episódios, com direção de Cesar Charlone (Diretor de fotografia de Cidade de Deus), Daina Giannecchini, Dani Libardi e Jotagá Crema, que deixa aberto para uma possível segunda temporada, vamos ver porem se a serie se mostra merecedora disso.

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