Marvelflix!

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Após 4 temporadas de uma Nova York de concreto, fumaça e neon, refém não de invasores alienígenas, mas de mafiosos, gangsteres, empresários inescrupulosos e políticos corruptos, finalmente podemos olhar para o todo, analisando mais um capítulo dos sempre audaciosos planos a longo prazo do nosso querido selo Marvel. Bem-vindos ao Marvelflix, universo onde os heróis do dia-a-dia fazem o trabalho sujo, enquanto tentam se esquivar dos destroços deixados pra trás pela turma da “primeira linha”.

A questão é: Está dando certo?

Fácil responder. Sim…está dando muito certo e os porquês são claríssimos e se acumulam. Resumindo, os caras entendem do que estão fazendo. Entendem da realidade da cidade, das várias facetas que apresenta em cada bairro ou beco, e como isso pode ser explorado para se adequar em cenários únicos para cada um dos seus heróis. Entendem de gente…do mosaico cultural que compõe o caldeirão e do olhar esperançoso de um povo que, depois de catástrofes impensáveis, segue em frente buscando símbolos de força inabalável que o represente, bem no estilão americano. E, acima de tudo, entendem os personagens e como certos elementos polêmicos são indispensáveis para se caracterizar camaradas como o Demolidor, esse ceguinho amoroso e gentil que se veste de capeta pra descer o sarrafo nos maloqueiros da Cozinha do Inferno.

A violência, por exemplo, não apenas dos vilões, mas na própria ação dos mocinhos, é fundamental para se estabelecer os limites do cara na selva. Não estamos mais falando de um Wolverine com garras de borracha aqui, mas de um Frank Castle alucinado, amedrontador, que não titubeia em estourar cabeças com uma calibre 12. E tudo isso é entregue de uma maneira crua, visceral, mas, ao mesmo tempo, tão meticulosamente pensada e ensaiada que fica bonito! A famosa cena do corredor é uma obra de arte pra ser vista e revista.

tumblr_nmnn1rrm5r1qzyoxwo7_540Mas nem só de tiro, porrada e bomba se faz um sucesso. Os dramas humanos sempre presentes na construção dos heróis Marvel são explorados sem filtros. Medos, culpas, arrependimentos, morte, álcool, sexo…está tudo lá. Em certa altura de Jessica Jones me peguei aconselhando a protagonista a, em nome de Deus, tomar um banho, mudar de roupa e seguir em frente. E os diálogos entre Matt e Frank são um teste duro para a crença dos defensores dos direitos humanos, assim como eu.

Tantos outros pontos podem ser destacados, mas fiquemos com mais um, e esse, talvez, a cereja do bolo: os vilões. Vincent D’onofrio (rei do crime), Jon Berntall (justiceiro) e David Tennant (Killgrave) ganharam presentes fabulosos e, em troca, entregaram ao público trabalhos absurdamente impecáveis! Arrisco-me em dizer que, com uma exceçãozinha ou outra, todos os melhores momentos dessas quatro temporadas tiveram a participação direta desses três. Palmas aos moços.

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Contudo, o futuro é incerto. Erros todos nós cometemos, só não dá pra abusar. E se podemos dar um nome para o calcanhar de Aquiles desse projeto, este é “instabilidade”. De Jessica Jones a Luke Cage (ih, falei nele), a força da história, a capacidade de prender o público, oscila de forma irritante, sobretudo tratando-se de temporadas tão curtas. Não sei se vocês, queridos leitores, passaram pela mesma situação que eu ao tentar convencer amigos a acompanharem JJ . Muitos reclamavam do quanto a série era monótona…chatinha mesmo…e eu pedia que fossem pacientes e aguardassem até o episódio 6, quando ela se tornaria uma das melhores coisas que a Marvel produziu. Convenhamos, entretanto, que esse pedido é um bocado ridículo ao falarmos de um arco de apenas 13 episódios. Essa paciência foi novamente testada agora, em L.C., pra mim o roteiro mais fraco até aqui. Recheado de clichês e plági…digo…homenagens a filmes “gangsta”, a primeira metade da história se apóia na presença de um vilão que nem de longe se compara em carisma aos que já citei, e quando este sai de cena, e você pensa “finalmente, agora vai…tipo J J”…bééééh…não vai.
Já em demolidor, segunda temporada, a coisa (des)funciona ao contrário. O início é arrebatador! O Justiceiro é, enfim, “O” Justiceiro! A discussão que norteia as ações é super atual e completamente integrada ao que se via nas telonas à época, em Guerra Civil. Enfim, tínhamos uma engrenagem perfeitamente azeitada no grande esquema…até mudarem o foco para Elektra. Por quê?! Um dos momentos mais marcantes dos quadrinhos passa ao lado na série, engolido pelo primeiro ato. Não vou dizer que foi ruim…só não foi tão bom como deveria ser.

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Pra mim, a explicação para essa montanha-russa é simples: Sobra pressa e falta fôlego. Seguindo os passos da matriz cinematográfica, a Marvelflix nitidamente joga olhando pra frente, distribuindo todas as suas peças de modo a montar o clímax o mais rápido possível. E se antes nós tivemos de passar por coisas como Thor e Capitão América: O Primeiro Vingador para alcançarmos o nirvana, hoje a aposta é bastante semelhante. Trabalhos que vão de bons a medianos, mas com força suficiente para formar uma grande base de fãs. Nerds e afins ávidos pelo “grande encontro”! Ver Demolidor, Justiceiro, J J e LC juntos compensa a viagem e os buracos na estrada….embora ainda tenhamos alguns metros pela frente.
Punho de Ferro! O que esperar? Francamente, não tenho as melhores expectativas. Primeiro por não ser um grande admirador do personagem, e depois pelo gosto ruim que LC deixou. O fato é que, em se tratando de mais uma história sobre mais um mestre supremo das artes marciais, precisaremos de um baita vilão, e o que li até agora foi que esta será a série com o maior número de vilões deste universo. Opa…muitos vilões…poucos episódios…sem espaço pra desenvolvimento…desde quando quantidade é sinônimo de qualidade, pessoal?

Além disso, há um detalhe mega importante que não pode ser perdido de vista nessas produções que mexem com o cenário urbano e com os heróis “Charles Bronson” ou “Bruce Lee”. Vingança…violência…criminalidade…kung fu…tudo isso já foi exageradamente batido. Não que não seja o máximo ver os fantasiados inseridos neste contexto, liberando todo o potencial dos seus dons nas fuças dos meliantes, mas isso não pode passar de uma isca. O anzol que sempre nos prendeu à Marvel é o diferencial…é o fator humano. É ver o trabalho do escritório Nelson e Murdock contra a promotoria. É ver uma mulher tão poderosa quanto Jessica tendo de lidar com os fantasmas deixados por seu “ex”…um super stalker. De verdade, não sei se veremos esse “x” nas cenas dos próximos capítulos. Espero muito que sim…

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Enfim, tomando cada parte como pedaços de algo maior, acredito que um 7,5 é uma nota bastante justa até o momento. De fato, há muita coragem e respeito aos personagens envolvidos, e, em tempos de BvS, trabalhos assim precisam ser aplaudidos. Contudo, não se perder no óbvio, na chatice da obrigação de se fazer parecer sério, e, principalmente, na tentação de se sustentar na poesia visual das grandes coreografias de porradas e tiroteios, é uma missão crucial para que a grande maçã Marvelflix também conheça suas fases 2…3…4…
Aguardamos ansiosamente.

3 Respostas para “Marvelflix!

    • Obrigado, companheiro! Espero estar à altura do material fera que o Mundo Guerreiro tem apresentado.
      Sobre o Cotton, concordo duplamente. Ele era um bom vilão (o problema é compará-lo aos vilões das outras séries), e ele tinha que ir até o final…ou que pelo menos parasse para dar lugar à prima. Naquele momento, quando a mulher surta, achei que o negócio ia pegar fogo…mas continuou morno. Tinha “pano” pra duas temporadas ali.

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